Figura 1 - Artibeus sp. (Phyllostomidae) em abrigo diurno sobre folhas (Fonte: Leyo).
Morcegos têm características únicas, que os permitem empreender voo verdadeiro e localizarem-se durante o deslocamento por meio de ecolocalização (Reis et al., 2007). Além disso, várias espécies de Phyllostomidae são importantes polinizadores e dispersores de sementes de numerosas plantas, enquanto espécies insetívoras ocupam posição de destaque no controle de populações de insetos, incluindo espécies prejudiciais às lavouras implantadas pelo homem (Peracchi et al., 2006). Portanto, possuem diversidade de formas e funções ecológicas a serem preservadas. Mas, ao mesmo tempo, podem ser difíceis de estudar. Estudos com quirópteros exigem paciência, dedicação e persistência (Pacheco, 2004). Essa autora justifica a afirmação pelo fato de eles voarem apenas à noite ou no crepúsculo, formarem colônias ou agrupamentos em locais de difícil acesso, serem ágeis e fugirem de pessoas menos experientes e/ou por poderem usar de diferentes áreas no interior dos abrigos durante o dia ou sazonalmente. Então, com frequência, acabam sendo subamostrados ou desconsiderados ou não focalizados em inventários de fauna.
Por esse motivo, o status de conservação de algumas espécies pode ser desconhecido ou indeterminado. Frik et al. (2020) relatam que, enquanto existem dados insuficientes em torno de 18% das espécies de morcegos do mundo, o mesmo ocorre apenas com relação a 13% dos mamíferos em geral e a 1% das aves. Além disso, mais da metade das espécies avaliadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) (57%) têm tendências populacionais desconhecidas em comparação com 39% de outros mamíferos e apenas 8% de todas as aves. Até mesmo em um estado tido como uma das unidades da federação mais bem amostradas (e.g., Rio de Janeiro), lacunas de conhecimento são apontadas (Costa, 2014). A fim de diminuir essas lacunas, Bernard et al. (2011) propõem uma lista com 17 tópicos considerados importantes para a conservação de morcegos no Brasil. Dentre eles, são enfatizados: a redução da proteção e o aumento da exploração a ricos e desconhecidos ecossistemas de cavernas associados ao grupo, a negligência e o desconhecimento dos serviços ambientais prestados pelas espécies e de sua valoração econômica, e a modificação do Código Florestal Brasileiro (CFB) com relação às áreas de preservação permanente (APPs) e às reservas legais (RLs).
O desconhecimento dos ecossistemas de cavernas é considerado sério risco para o táxon, pois dentre elas existem algumas que abrigam as maiores agregações de morcegos já estimadas, daí a necessidade de protegê-las (Furey e Racey, 2016). Sugere-se inclusive a revisão da Instrução Normativa n. 02/2017 do Ministério do Meio Ambiente, a qual classifica cavernas quanto à sua relevância no licenciamento ambiental, já que muitos dos seus trechos se mostram inadequados sob o enfoque dos morcegos (Barros et al., 2020). Isso porque complexos cavernícolas são refúgios para significativa proporção da quiropterofauna, havendo elevadas taxas de endemismo e riqueza de espécies associadas a tais ambientes (Almeida, 2014). A gravidade é ainda maior ao se considerar que a avaliação da magnitude de diferentes pressões e ameaças – feita por Jaramillo (2018) a partir de georreferenciamento – indicou que mais de 50% das cavernas com potencial para dar refúgio a morcegos estão fortemente ameaçadas por mineração e desmatamento nos seus arredores. Mas, apesar da reconhecida importância de tais ecossistemas para os quirópteros, a perda e a degradação das florestas são classificadas como as maiores ameaças para espécies de morcegos consideradas na lista da IUCN (Frick et al., 2020).
(...). Com relação ao conceito de etnoconservação, no âmbito da fauna de quirópteros, quando se analisam percepções e atitudes de moradores das adjacências a uma grande colônia de Tadarida brasiliensis, considerada monumento natural na Argentina, percebem-se correlações entre atitudes positivas com relação aos morcegos com o avanço da idade e da educação secundária (Castilla et al., 2020). Os autores consideram que tais atitudes resultam do sentimento de identidade para com a colônia e um maior conhecimento sobre ecologia, respectivamente. Em outras situações, atitudes de intolerância são associadas a sistemas de crenças tradicionais (Musila et al., 2018). Em uma interpretação diferente, revisões da valoração cultural de morcegos sugerem que o conhecimento tradicional muitas vezes acaba sendo influenciado por percepções culturais da sociedade ocidental hegemônica, o que causa a ruptura com sistemas de crenças locais responsáveis por associações originalmente mais positivas com os morcegos (Low et al., 2021). Sendo assim, estudos que combinam pesquisas ecológicas e análises da relação do ser humano com a quirópterofauna podem produzir informações muito relevantes.
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Figura 2 - Tadarida brasiliensis (Molossidae), morceguinho-das-casas insetívoro (Fonte: James Bailey).


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