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domingo, 1 de setembro de 2024

Ecologia Cultural da Comunidade Quilombola do Torres, Tracuateua - PA


Figura 1 - Visão de um quintal na comunidade do Torres. 


A comunidade quilombola do Torres está localizada na região norte do município de Tracuateua-PA (Figura 1). O município abriga formações litorâneas, como praias, dunas, restingas, manguezais e campos naturais, estando estes últimos inundados na estação chuvosa e ressecados na estação seca, além de serem caracterizados por vegetação esparsa arbóreo-arbustiva (AVIZ et al., 2013). A paisagem é recortada por rios e igarapés, os quais cortam tanto o município quanto as cidades vizinhas — Bragança, Santa Luzia, Ourém, Quatipuru, Primavera e Capanema. O acesso à comunidade dá-se por uma estrada com pavimento de piçarra e sem sinalização, cujo trajeto atravessa extensas áreas de pastagens de fazendas. (...).

A caça era realizada pelos indivíduos mais antigos, com preferência por espécies de mamíferos destinadas à alimentação familiar, sendo hoje a atividade de subsistência menos praticada pelos moradores. O desmatamento e as queimadas tiveram forte influência na redução e desparecimento da maioria das espécies de caça, o que vem sendo reportado para a região amazônica, em geral (CARMO; CARMO, 2019). A destruição do habitat teve por consequência a falta de alimento para a fauna silvestre, o que impediu a permanência de alguns animais na região. Relatos mencionam ainda recentes invasões noturnas aos terrenos pertencentes aos moradores da comunidade para a captura ilegal. Trata-se de um manejo inadequado, pois, quando a caça é feita com bases sustentáveis para algumas comunidades tradicionais da Amazônia, espécies mais sensíveis à alta intensidade de caça são substituídas temporariamente por outras com maior potencial reprodutivo e abundância, até que as primeiras possam ser caçadas novamente (REIS et al., 2022).

O enfraquecimento de tal elemento da cultura, que tem como meio o ambiente local, levou à introdução de animais domésticos, como galinha, porco, búfalo e outros no território quilombola (Figura 2). Por outro lado, a pesca artesanal continua a existir. Tradicionalmente, a pesca era realizada por homens, apesar de algumas mulheres também saberem pescar. Todo o material usado era artesanal, feito pelos próprios moradores. A tarrafa, por exemplo, apresenta-se como o objeto de maior utilização pelos mais antigos. Os peixes capturados eram principalmente de água doce — traíra, jacundá, piaba e outras — mas a ictiofauna dos rios próximos à comunidade também enfrenta um processo de substituição de espécies percebido pelos moradores:

“Agora tá com uns 15 ou 20 anos, surgiu outras espécies de peixe pra cá, mas não é daqui esses peixe, não.” (Respondente-5).

“Agora chegou o forró-bicudo, que é uma espécie de peixe de cruzação com tilápia, né? Aí, chegou a paraopeba, que é o tirapeba, que é o tipo de uma piaba, redondinho, que dá que só a desgranha.” (Respondente-1).

O ciclo da chuva tem forte influência sobre essa prática, pois, quando inicia o período chuvoso, a área de campo fica alagada, facilitando o acesso dos moradores às outras regiões. Os moradores então se deslocam de canoas até às praias mais próximas para coletar peixe de água salgada e catar (extrair) caranguejo. Além do que, quando inicia o período chuvoso, algumas espécies de peixes realizam o fenômeno da piracema, deslocando-se contra a corrente até às áreas adequadas para reprodução. Durante o período, ocorre o defeso, assim como tem sido mencionado para outras regiões do estado do Pará, como no rio Tapajós (ZACARDI et al., 2014).

Para ler mais, clique aqui.


Figura 2 - Pequeno rebanho de búfalos na comunidade.

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