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sexta-feira, 7 de março de 2025

Ecologia simbólica de espécies bandeira da megafauna

 Figura 1 - Tigre-Asiático (Panthera tigris), uma espécie bandeira da megafauna que vive em coabitação com humanos na região do Terai (Índia, Nepal e Butão).

 

A escolha de uma ou mais espécies bandeira como símbolo de um ecossistema e/ou de uma região é uma medida importante para a conservação e a restauração da biodiversidade. Elas contribuem com o aumento da atenção para o(s) seu(s) habitats, porque suas presenças instigam povos, populações e comunidades a perceberem-nas como parte da identidade local (EBRAHIMI; KAZEMI, 2023). Desde um ponto de vista prático, tal imagem propõe espécies como foco da atenção, ao invés da riqueza de espécies ou a diversidade genética, sendo que a conservação delas in situ “resulta na conservação de um número significativo de outras espécies de um amplo espectro de grupos taxonômicos” (DIETZ; DIETZ; NAGAGATA, 1994, p. 33). Porém, os critérios usados para a escolha de uma espécie bandeira por acadêmicos e/ou tomadores de decisão nem sempre coincidem com os critérios de decisão da sociedade humana sobre quais são suas espécies emblemáticas (WILLIAMS; BURGESS; RAHBEK, 2000; BOWEN-JONES; ENTWISTLE, 2002).

Essa não coincidência se deve ao fato de haver diferentes valores que são atrelados aos animais. Há exemplos, como o do peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) que, embora tenha valor culinário para moradores tradicionais das Antilhas (México), é também valorado como atração potencial para o turismo, o que faz com que membros das comunidades que vivem dentro da sua área de ocorrência tenham interesse em promover sua conservação (CORONA-FIGUEROA et al., 2022). Em outros casos, espécies bandeira são percebidas como estímulo ao debate acerca da mudança climática e da importância da água e da biodiversidade na vida diária das pessoas, além de propagar a necessidade de mudar a condição de degradação de ambientes, o desmatamento e a perda de espécies (BIROLO et al., 2022). Mas nem sempre a proteção delas de fato garante a conservação de uma diversidade ampla de organismos, o que depende da abrangência de suas áreas de ocorrência (WILLIAMS; BURGESS; RAHBEK, 2000).

Acontece que algumas vezes as espécies bandeira são predadoras de topo de cadeia trófica, as quais, por serem sensíveis a disfunções do ambiente, são consideradas indicadoras da produtividade de ecossistemas, além de terem carisma e formas atrativas, o que gera acúmulo de informações sobre elas (NATSUKAWA et al., 2023). Em outras situações, elas são espécies endêmicas, que podem ocorrer em hotspots de endemismos, associados a habitats importantes e raros, dentro dos quais, a proteção a elas garante a manutenção de todas as demais espécies (KRAUS et al., 2023). Além do que, há espécies de mamíferos aceitas socio culturalmente como símbolos nacionais dos países onde ocorrem (HAMMERSCHLAG; GALLAGHER, 2017; PARISH; OLIVE, 2024).

Em todos os casos, considera-se haver valores simbólicos associados a tais espécies, do que deriva o conceito de serviço cultural do ecossistema, algo que ainda é pouco estudado na academia (SCHIRPKE; MEISCH; TAPPEINER, 2018). A avaliação do valor cultural em termos de benefícios econômicos associados ao aparecimento de animais carnívoros diante de ecoturistas existe em diferentes contextos, mas também se questiona o custo de mantê-los próximos a comunidades humanas, devido aos danos que causam a elas (TATTONI et al., 2024). De qualquer forma, espécies bandeira podem ser elementos distintivos na vida das pessoas e/ou de nações, embora nem sempre isso por si só seja suficiente para assegurar sua conservação (HAMMERSCHLAG; GALLAGHER, 2017; PARISH; OLIVE, 2024). A destruição de suas populações e/ou a fragmentação dos seus habitats é contrastante com seu valor cultural e/ou simbólico.

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Figura 2 - Elefante-Indiano (Elephas maximus), outra espécie-bandeira da megafauna da região do Terai (Ásia), que coabita com humanos.

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