Figura 1 - Uma das representações gráficas do trabalho.
A lacuna existe para a pessoa humana moderna a-religiosa, cuja consciência é apenas um ato fisiológico, um fenômeno orgânico, envolvido por certo número de tabus. Para a religiosa, por sua vez, qualquer ato fisiológico pode tornar-se um sacramento (uma comunhão com o sagrado). A atitude do segundo tipo, para Mircea Eliade, existe no ser humano na forma de uma pré-disposição natural para perceber as hierofanias e vivenciar o sagrado (Souza, 2023). Predisposição essa que alguns consideram que foi desencorajada na modernidade, taxada de irracional, na medida em que o sagrado foi sendo colonizado, tornando-se “restrito ao domínio das hierarquias da religião institucionalizada, sobretudo as de compleição eurocêntrica” (Amaro, 2023, p. 8). No entanto, a promoção do distanciamento entre natureza e cultura tem sido severamente criticada, porque a experiência humana é rica de significados simbólicos (Cavalcante, 2005; Moraes-Ornellas, 2023).
Isso fica muito claro ao se observar a associação entre natureza e religião, ao longo de ciclos anuais, que está na origem de calendários ecológicos tradicionais, baseados em indicadores sazonais locais e informações sobre configurações celestes, que indicam momentos propícios para a realização de eventos sagrados (Lokho; Franco; Narasimhan, 2022). Convergências ecológicas culturais entre povos indígenas geograficamente distantes corroboram com uma visão não antagônica entre natureza e cultura e com a ausência de demarcação entre natureza e religião (Moraes-Ornellas, 2023). O rompimento de barreiras entre o sagrado e o profano, através de uma ruptura simbólica-cultural com o dualismo entre ser humano e natureza, e entre ser humano e os outros seres vivos é muitas vezes sugerido (Schussler, 2020; Rajbongshi, 2023). Mesmo assim, ainda faltam esforços em torno de tal rompimento, que separa o ser humano da natureza, a natureza do sagrado e a ciência da religião, separações essas que podem ser compreendidas como resultantes de uma mesma crise da percepção. (...).
Desde a perspectiva das novas espiritualidades, propõe-se uma visão holística da relação entre a humanidade e o planeta, dentro da qual, o crescimento espiritual é visto como sinônimo de salvação, enquanto o planeta é concebido como a casa comum de todos os seres existentes (Pessoa; Andrade, 2020). Como parte da relação, o cultivo de si mesmo incorpora um conjunto de práticas auto-educativas, que visam o aperfeiçoamento pessoal; e o cultivo do ambiente se refere à preocupação ecológica com o consumo sustentável dos recursos naturais, a educação ambiental e a sobrevivência do planeta (Carvalho; Steil, 2008). A palavra ecoespiritualidade passa então a ser empregada com frequência, associando religiosidade às atividades humanas na natureza e/ou enquanto componente autoconsciente dela (Kundlatsch et al., 2017; Silveira, 2019; Silveira; Silveira, 2019). Partindo de tal perspectiva, pretendeu-se fazer uma aproximação entre uma epistemologia acadêmica, acumulada ao longo de anos de pesquisas na área da ecologia, e compreensões adquiridas em vivências das novas espiritualidades, com a intenção de contribuir com a ruptura para com o distanciamento entre natureza e cultura e quiçá entre ciência e religião (Figuras 1 e 2).
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