O Quilombo de Jacarequara está localizado no município de Santa Luzia do Pará (1° 29’ 52’’ S, 46° 55’ 27’’ W), às margens do rio Guamá, na divisa com o município de Capitão Poço. É habitado por aproximadamente 324 moradores, incluindo adultos, jovens e crianças. Todos se identificam como remanescentes de quilombos e, em sua maioria, exercem atividades de subsistência, como agricultura familiar e extrativismo. Além do que, a comunidade costuma desenvolver práticas culturais e de resistência. Para o desenvolvimento do presente trabalho foram realizadas entrevistas semiestruturadas com cinco dos moradores mais antigos (E1 a E5), sendo que a entrevistadora também é nascida e mora na comunidade (Ana Beatriz C. Pereira). (...). Na comunidade, as roças eram eixos importantes de socialização e cooperação. Os entrevistados contaram muitos detalhes da relação coletiva que havia com a agricultura. Segundo seus relatos, os lavradores eram homens e mulheres, sendo que todos que conseguiam andar normalmente iam para a roça. “Num é qui nem agora que mulher fica na casa, só u macho que tá cuidandu e si virando” – relata E1. E2 também descreve o trabalho unido das pessoas na comunidade em épocas anteriores, quando, antes e depois de fazer o roçado, todos se reuniam para fazer a ladainha para Nossa Senhora do Livramento – “a santa que eles tinham devoção” – conta ela. Então, havia mutirões, conforme relata E4. Quando era para plantar maniva, iam todos plantar maniva. Se era para fazer farinha, iam todos fazer farinha.
A criação de animais domésticos também era comum entre os moradores, porém com a mudança das condições ambientais causadas pelo desmatamento, surgiu outro padrão de comportamento. Para criar boi, só com capinzal e aplicação de medicamentos; e porcos só com ração. Isso fez com que a cultura alimentar mudasse, sendo fortemente influenciada por produtos disponíveis no comércio. De modo análogo, Silva et al. (2015) encontraram correlação positiva entre a proximidade de agrupamentos quilombolas de Goiás às cidades e o consumo de alimentos industrializados, como doces, embutidos, refrigerantes e outros. Em uma circunstância diferente, Souza, Monego e Santiago (2020) perceberam mudanças alimentares causadas pela redução dos recursos naturais disponíveis devido ao desmatamento, diminuição da área agrícola e pelo desaparecimento do conhecimento sobre uso e manejo das espécies nativas.
Todos esses fatores parecem ter influenciado as mudanças relatadas pelos moradores mais antigos da comunidade de Jacarequara. A caça aparece também nos relatos deles como importante elemento da cultura material de interação com o meio natural que havia no passado. Espécies mais comumente caçadas foram mencionadas. Porém, devido ao excesso de caça, que é um padrão comportamental importante dentro desta categoria analítica ecológico cultural, e ao desmatamento, os animais de caça foram localmente extintos. A consequência sobre a cultura é que as crianças não têm mais o mesmo tipo de contato que as crianças das gerações anteriores tinham com a fauna silvestre. Esse tipo de situação é bem característica das comunidades, em cujos territórios houve empobrecimento da biodiversidade e as gerações mais jovens vêm sendo influenciadas pela educação formal urbana. Projetos de educação ambiental diferenciada são necessários (MORAES-ORNELLAS, 2020, 2021).
A caça costumava ser tão importante para a comunidade que, segundo E1, na semana santa, durava oito dias. Os homens saíam em grupos de três a cinco. “Pur que uma anta, quandu o caboco mata, ele num dá conta de carregar, muita carne”. Depois do trabalho, tinha ladainha para Nossa Senhora do Livramento – a protetora dos caçadores e dos lavradores. Os caçadores não lavavam suas roupas, apenas molhavam e colocavam para secar no sol. Se lavasse com sabão, perdia a fortuna. E2 chama de fortuna a sorte de ter uma boa caça. Quando isso acontecia, a carne já chegava moqueada ou era enterrada salgada entre palhas. Essas eram as técnicas de preservação utilizadas em um tempo em que não havia refrigeradores. E3 também relata o costume de “muquiar” a carne das caças, o que os homens faziam no mato mesmo. Ele descreve que se tirava lenha para fazer o fogo, estendia-se a carne salgada por cima (em um giral), botava-se folha de açaí no fogo e a fumaça chegava perto, mas não pegava quase na comida.
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