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sexta-feira, 31 de maio de 2024

Aprendendo lições de conservação com naturalistas tradicionais da floresta

Figura 1 - Explorando os modos de vida ribeirinhos da Amazônia paraense (Rio Xingu).
 

Estudos mostram que existem situações em que a relação entre extrativistas e a fauna silvestre se caracteriza como conflituosa. Do que resultam atitudes de matar ou espantar os animais e não propriamente de implantarem-se estratégias de manejo que reduzam os conflitos. Aventa-se a necessidade do envolvimento dos órgãos gestores na tomada de medidas de mitigação dos eventos, inclusive através de educação ambiental (Belchior, 2011). Em tais casos, não há propriamente saberes tradicionais que assegurem um convívio em equilíbrio, responsável pela manutenção controlada das populações de fauna. O aprender-ensinar junto de comunidades nas quais existem práticas deste tipo pode contribuir com experiências a serem compartilhadas com aqueles que as desconhecem. Assim como descrito por Bixler (2013), por meio de regularidades históricas e interação social, constroem-se narrativas ambientais por parte dos moradores, as quais podem descrever a cadeia de mecanismos que levaram uma espécie à quase extinção local.

No entanto, o detalhamento dos eventos ecológicos percebido e/ou relatado é bastante variável de uma comunidade a outra, bem como de uma pessoa chave a outra em uma mesma comunidade. Em algumas delas, uma realidade interna (subjetiva ou espiritual) é complementar à realidade externa (objetiva ou física). Em uma situação assim, a aderência à adoração ao ancestral crocodilo em Timor Leste, levou a um aumento da população de crocodilos de água salgada e ao crescimento do número de casos de acidentes fatais causados por eles (Brackhane et al., 2019). Tentativas de remoção de alguns crocodilos gerou conflitos com moradores mais velhos, que sugeriram a possibilidade de consequências negativas causadas pela insatisfação da “Mãe Natureza”. Evitam-se conflitos quando se procuram compreender os significados espirituais ou subjetivos da realidade interna que compõe a compreensão ecológica das comunidades,
pois elas têm muitos significados práticos também.

Tais significados não devem ser considerados de maneira pejorativa apenas como tabus ou mitos, pois, Freud e demais autores da psicanálise têm demonstrado a importante realidade da parte subjetiva da existência (Moraes-Ornellas, 2022). Em um caso específico, segundo Dirwai (2007), florestas nativas de Zimbabwe, cuja administração é tecnocrática, se encontram bastante degradadas, apesar de inúmeras restrições previstas na legislação local. Enquanto isso, uma reserva florestal tradicional usada para fins cerimoniais ancestrais tem sido estritamente protegida da destruição, por ser considerada sagrada para os nativos. No Brasil também é feita uma aproximação entre a rejeição à caça de uma espécie em particular (a anta, Tapirus terrestris), devido a questões sobrenaturais, e sua presença na lista de espécies da fauna ameaçada de extinção (Figueiredo & Barros, 2015). Regras culturais atuam no sentido de estabelecer limites e conduzir a ação social dos caçadores (Figueiredo & Barros, 2016). Para biólogos assumirem posição em torno delas, a biologia tem que interagir mais com as ciências psicológicas.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui

 

           
Figura 2 - Armadilha do tipo "arapuca" utilizada por um indígena da Amazônia paraense.

 

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