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sábado, 18 de abril de 2026

Ecofilosofia, Ecologia Profunda e Vedanta – aplicações psico-socioambientais de diálogos interculturais Brasil-Índia


Figura 1 - Rota de peregrinação em Govardhana, Índia.

Divulgo aqui um projeto de extensão da UFPA, que parte do pressuposto que a sociedade humana precisa viver em paz com a natureza, pois uma vida pacífica é muito mais produtiva do que uma vida conturbada. Por esse motivo, uma grande diversidade de aproximações literárias e/ou práticas indica a presença bem difundida do desejo pela pacificação da sociedade. Tal presença tão difundida, para Danesh (2006), se deve também à dificuldade que existe de se alcançar um acordo sobre a natureza da paz e a maneira de construí-la. No entanto, desde um ponto de vista psicológico e humanitário, a paz só se constrói quando existe liberdade para as pessoas compreenderem-se umas às outras na vida cotidiana e ao seu meio, enquanto abrigo ou residência (Moraes-Ornellas; Ornellas, 2023). 

Dentro disso, a união entre os povos e as nações é legitimada quando a igualdade que há por trás da diversidade humana é valorizada. Neste sentido, o diálogo intercultural tem importante função, pois a partir dele pode haver uma mudança de paradigma existencial da humanidade (Moraes-Ornellas, 2025). (...). Faz-se necessário então entender fenômenos que acontecem dentro de diferentes contextos filosóficos. Uma educação intercultural, que possa gerar tolerância entre povos e nações e da sociedade para com os outros componentes vivos e não vivos do meio, só se faz a partir de um olhar sobre as diversidades, tanto dentro quanto fora de um mesmo país.  O conhecimento sobre tais diversidades irá validar ou não o que se acredita ser melhor para a vida humana em termos de intercâmbios interculturais filosóficos.

Dentre as possíveis interações entre ocidente e oriente, encontraram-se muitas semelhanças entre a Pedagogia da Terra (ou ecopedagogia), a ecologia profunda e abordagens filosóficas ambientalistas do país indiano (Moraes-Ornellas; Ornellas, 2023) - clique aqui para ver. Mais especificamente as abordagens da Índia estudadas foram observadas em cidades consideradas sagradas para os Hindus, tendo origens do Vedanta e mostrando-se adequadas para a propagação do convívio harmonioso entre crenças e culturas diferentes e a adaptação da sociedade ao meio de maneira mais equilibrada com a natureza (Moraes-Ornellas, 2025). Conclusões do Vedanta têm sido muitas vezes aproximadas de achados da ciência (Gain, 2023), mas suas principais aplicações continuam sendo nas áreas da filosofia (Das, 2023), da psicologia (Sharma, 2021) e da religião (Sarkar, 2021). 

O estudo aprofundado da ecorreligiosidade hinduísta (Figura 1), que está sob forte influência do Vedanta, permitiu a identificação de princípios que podem ser empregados com finalidade ecopedagógica, como: maior adaptação da sociedade ao meio natural, por meio do estabelecimento de interações mais equilibradas com a natureza, além de melhor entendimento da unidade que existe por detrás da diversidade da sociedade humana (Moraes-Ornellas, 2025). O presente projeto pretende dar prosseguimento a pesquisas já realizadas em torno de tais aplicações, entre os anos de 2004 e 2025, além do que vem sendo desenvolvido no âmbito do Projeto Brasil-Índia Biocultural, desde julho de 2023 (Moraes-Ornellas, 2023). Seu principal propósito é organizar aproximações entre filosofias ecológicas ocidentais e a filosofia do Vedanta, enquanto uma tradição filosófica não ocidental, de maneira a torna-las didaticamente adequadas para a propagação de uma educação socioambientalista e pacifista contextualizada para a realidade do litoral amazônico paraense.

Vídeos curtos de aplicações da Pedagogia do Gurukula em torno de  Madhurya Rasa, princípio fundante da percepção do sagrado na natureza

Madhurya, the Rasa of Sweetness


Mini-curso realizado em 2025

"Ecopsicologia, Saúde Ecológica da Mente e (Re)Conexão com a Natureza"


sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O sagrado na natureza

Figura 1 - Uma das representações gráficas do trabalho.


Mediante um suposto estado de crise da percepção da humanidade, sugere-se a necessidade de um refinamento dos sentidos e da ampliação da percepção de si mesmo do ser humano (Capra, 2012; Pigozzo; Lima; Nascimento, 2019). Ideologias, como as da ecologia profunda e do ecofeminismo, desprezando o realismo científico e a tecnocracia, propõem uma moralidade natural e intuitiva (Marangudakis, 1998), a interconexão autopercebida do indivíduo com os outros e com o ambiente (Klemmer; McNamara, 2019) e maior afinidade entre ecologia e espiritualidade (Dhungana; Neupane, 2021; Rajbongshi, 2023). Afinal, se o uso da percepção científico-analítica enfatiza apenas duas dimensões constitutivas humanas– a corporal (ou somática) e a psicológica–, sem dar expressão à dimensão espiritual (noética), o ser humano não exercita a reflexão sobre os sentidos da vida, não se abrindo ao transcendente, tenha ele um formato religioso ou não (Bernardes, 2022). Nesse caso, aprofunda-se a lacuna que separa as duas modalidades de experiência – a sagrada e a profana.

A lacuna existe para a pessoa humana moderna a-religiosa, cuja consciência é apenas um ato fisiológico, um fenômeno orgânico, envolvido por certo número de tabus. Para a religiosa, por sua vez, qualquer ato fisiológico pode tornar-se um sacramento (uma comunhão com o sagrado). A atitude do segundo tipo, para Mircea Eliade, existe no ser humano na forma de uma pré-disposição natural para perceber as hierofanias e vivenciar o sagrado (Souza, 2023). Predisposição essa que alguns consideram que foi desencorajada na modernidade, taxada de irracional, na medida em que o sagrado foi sendo colonizado, tornando-se “restrito ao domínio das hierarquias da religião institucionalizada, sobretudo as de compleição eurocêntrica” (Amaro, 2023, p. 8). No entanto, a promoção do distanciamento entre natureza e cultura tem sido severamente criticada, porque a experiência humana é rica de significados simbólicos (Cavalcante, 2005; Moraes-Ornellas, 2023).

Isso fica muito claro ao se observar a associação entre natureza e religião, ao longo de ciclos anuais, que está na origem de calendários ecológicos tradicionais, baseados em indicadores sazonais locais e informações sobre configurações celestes, que indicam momentos propícios para a realização de eventos sagrados (Lokho; Franco; Narasimhan, 2022). Convergências ecológicas culturais entre povos indígenas geograficamente distantes corroboram com uma visão não antagônica entre natureza e cultura e com a ausência de demarcação entre natureza e religião (Moraes-Ornellas, 2023). O rompimento de barreiras entre o sagrado e o profano, através de uma ruptura simbólica-cultural com o dualismo entre ser humano e natureza, e entre ser humano e os outros seres vivos é muitas vezes sugerido (Schussler, 2020; Rajbongshi, 2023). Mesmo assim, ainda faltam esforços em torno de tal rompimento, que separa o ser humano da natureza, a natureza do sagrado e a ciência da religião, separações essas que podem ser compreendidas como resultantes de uma mesma crise da percepção. (...).

Desde a perspectiva das novas espiritualidades, propõe-se uma visão holística da relação entre a humanidade e o planeta, dentro da qual, o crescimento espiritual é visto como sinônimo de salvação, enquanto o planeta é concebido como a casa comum de todos os seres existentes (Pessoa; Andrade, 2020). Como parte da relação, o cultivo de si mesmo incorpora um conjunto de práticas auto-educativas, que visam o aperfeiçoamento pessoal; e o cultivo do ambiente se refere à preocupação ecológica com o consumo sustentável dos recursos naturais, a educação ambiental e a sobrevivência do planeta (Carvalho; Steil, 2008). A palavra ecoespiritualidade passa então a ser empregada com frequência, associando religiosidade às atividades humanas na natureza e/ou enquanto componente autoconsciente dela (Kundlatsch et al., 2017; Silveira, 2019; Silveira; Silveira, 2019). Partindo de tal perspectiva, pretendeu-se fazer uma aproximação entre uma epistemologia acadêmica, acumulada ao longo de anos de pesquisas na área da ecologia, e compreensões adquiridas em vivências das novas espiritualidades, com a intenção de contribuir com a ruptura para com o distanciamento entre natureza e cultura e quiçá entre ciência e religião (Figuras 1 e 2).

Para ler mais, clique aqui.


Figura 2 - Lalita Kunda, um dos locais de peregrinação do estado de Uttar Pradesh, Índia, onde foram realizadas observações, entre abril de 2018 e maio de 2024.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Estudo bioecológico da anta (Tapirus terrestris) aplicado ao ensino


Figura 1 - Anta (Tapirus terrestris), por zoosnow

Trabalhando o conceito de serviços ambientais prestados pelas espécies da fauna silvestre na manutenção das florestas com os discentes de Etnodesenvolvimento, percebe-se que eles conhecem muitos deles, mas precisam de um reforço teórico conceitual para os valorizarem mais, principalmente no que se refere a algumas espécies animais (MoraesOrnellas & Ornellas, 2023). A anta em si é muito citada como caça (Figura 1), o que se dá entre indígenas, quilombolas, extrativistas ribeirinhos da região de Altamira, Pará. Por outro lado, um dos relatos dos discentes se referiu a um respeito simbólico que existe entre indígenas Araweté para com a espécie. Quando um exemplar é caçado, não se escutam músicas em som alto na aldeia, até que a carne do exemplar seja toda consumida. Resgatar tais histórias e encantarias, entre licenciandos da Amazônia, os estimula a valorizarem a cultura local de onde vivem, de modo a estimularem também seus futuros alunos da Educação Básica. Há muitos saberes e fazeres que podem preservar populações de T. terrestris e, portanto, das demais espécies que  coexistem com ela em seus habitats. Daí o porquê trabalhar com  aspectos da bioecologia dela no Ensino Superior, de maneira  transdisciplinar, pode ser tão importante.

A história natural da anta ainda precisa ser mais bem inventariada, já que lacunas permanecem em torno de sua ecologia evolutiva. Obviamente que o mesmo padrão pode ser encontrado no que diz respeito a outros taxa. Na medida em que o conhecimento vai se acrescentando, com novas pesquisas sendo realizadas paleontológicas, morfológicas, mitocondriais, genômicas, filogenéticas, evolutivas etc. – torna-se necessário atualizar os quadros teóricos referenciais. Mas, é importante que o ensino e a aprendizagem nas universidades, escolas e espaços de educação não formal acompanhem as atualizações.

No que se refere à inserção da anta no ensino de biologia da conservação, sugere-se uma abordagem que possa ir além da compreensão NeoDarwiniana do seu processo evolutivo. Aqui se propõe que talvez os processos Darwinianos, atuando de fora para dentro do organismo, e os não-Darwinianos, como propostos pela abordagem multidimensional da evolução biológica defendida por Eva Jablonka e Marion Lamb, que fazem o caminho inverso, possam ser abordados no ensino. Porém, além disso, relações comportamentais e simbólicas, envolvendo as antas e os hominídeos possivelmente possam também compor tais abordagens. Afinal, tal coexistência está registrada em desenhos rupestres, encontrados por Beltrão & Locks (1993) em sítios arqueológicos que, segundo Nogueira & Barbosa (2015), pertencem à transição entre Pleistoceno e Holoceno.

Sugere-se que uma abordagem desse tipo possa contribuir com a reflexão crítica das relações contemporâneas do ser humano com os ecossistemas, as quais podem interferir nas teias de interações genéticas e epigenéticas das demais espécies. Enfim, isso é importante de ser trabalhado no ensino de biologia da conservação, dentro dos cursos de formação de professores, tendo em vista o fomento da compreensão de como a espécie humana participa da moldagem da história evolutiva e da bioecologia de espécies da fauna.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

sábado, 13 de setembro de 2025

A fauna, as florestas e os rios na identidade ribeirinha e/ou extrativista


O conhecimento tradicional tem sido transmitido entre gerações nas comunidades ribeirinhas e extrativistas da Amazônia, mas essa identidade sociocultural e ecológica ainda não é bem conhecida social e academicamente, o que faz com que as novas gerações não tenham interesse em continuar a viver na floresta. Na tentativa de fortalecer a valorização dessa identidade e sua continuidade na Amazônia, foi realizado um estudo baseado na ecologia cultural na Reserva Extrativista do Rio Xingu. Foram identificadas sete categorias analíticas, representando interações entre elementos da cultura e do ambiente, e padrões comportamentais adaptados às mudanças socioculturais e às consequências das mudanças na cultura. Destacam-se: (i) o desaparecimento do artesanato em madeira; (ii) a transição nutricional em curso, com forte influência do mercado estrangeiro de produtos alimentares processados; e (iii) o uso de remédios naturais, feitos a partir de plantas medicinais da floresta, mantido por alguns dos residentes. Por outro lado, a caça de subsistência ainda está bastante viva, assim como a pesca, cujas principais características mudaram, no entanto, devido a alterações nos ciclos fluviais por ação antropogênica. Sugerimos que a descrição da identidade ribeirinha e/ou extrativista pode contribuir com melhores compreensões para os próprios residentes das reservas extrativistas, o que é fundamental para apoiar o desenvolvimento de políticas públicas, educação escolar diferenciada e a valorização dessa identidade pelas novas gerações. Isso é essencial para que a floresta amazónica continue de pé, com as populações tradicionais vivendo de forma sustentável dos recursos naturais da floresta e do rio.

https://doi.org/10.1007/s44177-025-00093-z

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Ecopsicologia, Saúde Ecológica da Mente e (Re)Conexão com a Natureza



Docente:

Profa. Dra. Valéria S. Moraes Ornellas


Ementa:

Conceito de ecopsicologia. Elementos básicos de fenomenologia da concepção de natureza e da ecologia da mente. Modelo multidimensional de bem-estar (Ryff e Keyes, 1995): o conceito de bem-estar subjetivo e seus três aspectos - uma medida integral da vida. Capacidade natural de auto-aceitação e de autonomia para o domínio da experiência no ambiente ao redor. Ecofilosofia, Ecologia Profunda e Filosofia Vedanta: algumas ferramentas para ativar a saúde ecológica da mente. Práticas de (Re)Conexão com a Natureza: meditação na ação, amplificação simbólica (de C. G. Yung) e os Yogas - caminhos de conhecimento e compreensão da natureza.

 

Bibliografia

GIACOMONI, C. H. Bem-estar subjetivo: em busca da qualidade de vida. Temas em Psicologia da SBP, v. 12, n. 1, p. 43-50, 2004.

JEANNIN, D. L. B.; SERBENA, C. Prática do Yoga e a saúde segundo a psicologia analítica. Revista de Ensino, Educação e Ciências Humanas, v. 17, n. 3, p. 292-300, 2016.

JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016.

MORAES-ORNELLAS, V. S. O sagrado na natureza: fundamentos comuns entre culturas religiosas e a ética da terra. Interações, v. 20, n. 1, 2025 (no prelo).

PATANJALI. The Yoga Sutra. 2003. Disponível em: https://www.arlingtoncenter.org/Sanskrit-English.pdf. Acessado em: 8 jul. 2025.

ROSZAK, T.; GOMES, M. E.; KANNER, A. D. Ecopsychology: Restoring the earth, healing the mind. San Francisco: Sierra Club Books, 1995.

 

Período: 30/07, das 14h às 17 h; e 31/07, das 8h às 12h

 

Vagas: 20


Inscrições: https://www.even3.com.br/jaetno2025/

sexta-feira, 7 de março de 2025

Ecologia simbólica de espécies bandeira da megafauna

 Figura 1 - Tigre-Asiático (Panthera tigris), uma espécie bandeira da megafauna que vive em coabitação com humanos na região do Terai (Índia, Nepal e Butão).

 

A escolha de uma ou mais espécies bandeira como símbolo de um ecossistema e/ou de uma região é uma medida importante para a conservação e a restauração da biodiversidade. Elas contribuem com o aumento da atenção para o(s) seu(s) habitats, porque suas presenças instigam povos, populações e comunidades a perceberem-nas como parte da identidade local (EBRAHIMI; KAZEMI, 2023). Desde um ponto de vista prático, tal imagem propõe espécies como foco da atenção, ao invés da riqueza de espécies ou a diversidade genética, sendo que a conservação delas in situ “resulta na conservação de um número significativo de outras espécies de um amplo espectro de grupos taxonômicos” (DIETZ; DIETZ; NAGAGATA, 1994, p. 33). Porém, os critérios usados para a escolha de uma espécie bandeira por acadêmicos e/ou tomadores de decisão nem sempre coincidem com os critérios de decisão da sociedade humana sobre quais são suas espécies emblemáticas (WILLIAMS; BURGESS; RAHBEK, 2000; BOWEN-JONES; ENTWISTLE, 2002).

Essa não coincidência se deve ao fato de haver diferentes valores que são atrelados aos animais. Há exemplos, como o do peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) que, embora tenha valor culinário para moradores tradicionais das Antilhas (México), é também valorado como atração potencial para o turismo, o que faz com que membros das comunidades que vivem dentro da sua área de ocorrência tenham interesse em promover sua conservação (CORONA-FIGUEROA et al., 2022). Em outros casos, espécies bandeira são percebidas como estímulo ao debate acerca da mudança climática e da importância da água e da biodiversidade na vida diária das pessoas, além de propagar a necessidade de mudar a condição de degradação de ambientes, o desmatamento e a perda de espécies (BIROLO et al., 2022). Mas nem sempre a proteção delas de fato garante a conservação de uma diversidade ampla de organismos, o que depende da abrangência de suas áreas de ocorrência (WILLIAMS; BURGESS; RAHBEK, 2000).

Acontece que algumas vezes as espécies bandeira são predadoras de topo de cadeia trófica, as quais, por serem sensíveis a disfunções do ambiente, são consideradas indicadoras da produtividade de ecossistemas, além de terem carisma e formas atrativas, o que gera acúmulo de informações sobre elas (NATSUKAWA et al., 2023). Em outras situações, elas são espécies endêmicas, que podem ocorrer em hotspots de endemismos, associados a habitats importantes e raros, dentro dos quais, a proteção a elas garante a manutenção de todas as demais espécies (KRAUS et al., 2023). Além do que, há espécies de mamíferos aceitas socio culturalmente como símbolos nacionais dos países onde ocorrem (HAMMERSCHLAG; GALLAGHER, 2017; PARISH; OLIVE, 2024).

Em todos os casos, considera-se haver valores simbólicos associados a tais espécies, do que deriva o conceito de serviço cultural do ecossistema, algo que ainda é pouco estudado na academia (SCHIRPKE; MEISCH; TAPPEINER, 2018). A avaliação do valor cultural em termos de benefícios econômicos associados ao aparecimento de animais carnívoros diante de ecoturistas existe em diferentes contextos, mas também se questiona o custo de mantê-los próximos a comunidades humanas, devido aos danos que causam a elas (TATTONI et al., 2024). De qualquer forma, espécies bandeira podem ser elementos distintivos na vida das pessoas e/ou de nações, embora nem sempre isso por si só seja suficiente para assegurar sua conservação (HAMMERSCHLAG; GALLAGHER, 2017; PARISH; OLIVE, 2024). A destruição de suas populações e/ou a fragmentação dos seus habitats é contrastante com seu valor cultural e/ou simbólico.

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Figura 2 - Elefante-Indiano (Elephas maximus), outra espécie-bandeira da megafauna da região do Terai (Ásia), que coabita com humanos.

sábado, 18 de janeiro de 2025

Natureza privada dos condomínios como abrigo da ornitofauna

 Figura 1 -Visão de uma parte da natureza privada do Condomínio Retiro da Serra, Teresópolis - RJ.


Áreas residenciais em meio a vegetação representada por Unidades de Conservação podem abrigar muitas espécies da ornitofauna. Mas geralmente a riqueza de espécies nessas áreas é menor do que a registrada em áreas com ambientes mais variados, sem núcleos residenciais, como detectado na praia de Itaguaré, Baixada Santista - SP (BOKERMANN et al., 2020). De qualquer forma, condomínios constituídos por mosaicos de fragmentos florestais e da vegetação nativa em diferentes etapas de regeneração, em meio a edificações, pomares, hortas e represas podem ser importantes abrigos para espécies que estão sendo reabilitadas do cativeiro (MOREIRA, 2023). Isso porque eles representam interfaces entre as áreas antropizadas e as áreas vegetadas com menor interferência humana, o que pode ser percebido no Condomínio Retiro da Serra, Teresópolis (Figura 1), em contato com a Serra dos Órgãos (RJ).

Em gradientes formados entre ambientes alterados e ambientes com menor grau de distúrbio, a diversidade de aves diminui quanto maior a alteração. Na costa marítima da província de Buenos Aires, Argentina, a vegetação natural das dunas e lagunas foi substituída por plantações de Pinus spp. e áreas urbanizadas, com alta densidade de residências particulares, complexos turísticos, muita circulação de pessoas e veículos, acompanhada de abundante vegetação ornamental (HAAG et al., 2020). Tais tipos de mudanças na estrutura e composição da paisagem causam alterações na composição da avifauna (BOKERMANN et al., 2020; HAAG et al., 2020; SCHUNCK; ALVES; CANDIA-GALLARDO, 2020). A perturbação causada pelo barulho interno a edificações em construção e/ou reforma afeta negativamente o comportamento e o sucesso reprodutivo de andorinhas de chaminé (Chaetura pelagica) em condomínios em Saint Adolphe, Manitoba, Canadá (POOLE; STEWART; STEWART, 2022).

Por esse motivo, embora as áreas condominiais, como a que foi estudada em Teresópolis, possam funcionar como abrigo para algumas espécies de aves, condomínios de alto padrão no entorno de Unidades de Conservação podem gerar vários impactos ambientais, levando à degradação da avifauna (SCHUNCK; ALVES; CANDIA-GALLARDO, 2020). A formação de mosaicos de habitats homogêneos e os ruídos causados pela ocupação têm por consequência a substituição de espécies de aves especialistas ou endêmicas por espécies generalistas e/ou com distribuição mais ampla (HAAG et al., 2020). Espécies ameaçadas de extinção e/ou que dependem de matas mais altas para sobreviver só são encontradas na área amostrada na Baixada Santista que está dentro do Parque Estadual Restinga de Bertioga (SP), estando ausentes das outras duas áreas que também foram amostradas na região, mas que se caracterizam pela existência de núcleos residenciais (BOCKERMANN et al., 2020).

Sendo assim, a natureza privada, composta por fragmentos florestais e outros ecossistemas localizados em condomínios, pode ter uma função específica à sua condição em particular. A interface entre Unidades de Conservação e centros de maior urbanização, como é o caso do condomínio Retiro da Serra, representa uma parte importante de um gradiente, que foi detalhado em alguns dos trabalhos analisados. A potencialidade ecopedagógica de tais áreas de segundas residências, quando elas contém grande proporção de revestimento florestal, além de ajardinamentos (Figura 2), inclui a possibilidade de execução de projetos de manejo da avifauna, como os que envolvem reabilitação e soltura. Mas ruídos da ação humana, que são muito frequentes na área estudada em Teresópolis, geram distúrbios de comportamento, podendo interferir até mesmo no sucesso reprodutivo de algumas espécies. O trabalho de sensibilização dos moradores tem bastante relevância, o que pode ser pensado como parte da administração condominial, de maneira participativa, com os proprietários.

Para ler o capítulo de livro na íntegra, clique aqui.


Figura 2 - Aspecto dos ajardinamentos do Condomínio Retiro da Serra, Teresópolis - RJ.


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Ecofilosofia, Ecologia Profunda e Vedanta – aplicações psico-socioambientais de diálogos interculturais Brasil-Índia

Figura 1 - Rota de peregrinação em Govardhana, Índia. Divulgo aqui um projeto de extensão da UFPA, que parte do pressuposto que a  sociedade...