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sábado, 7 de dezembro de 2024

Dimensões práticas e simbólicas da Vaca Sagrada do Hinduísmo

 Figura 1 - Vaca com seu bezerro nas ruas da cidade de Vrindavana, UP

 

Aplicações de versos do BP - Bhagavata Purana se referem ao uso medicinal e ritualístico de urina, esterco, leite, ghee e coalhada (panchagavya), bem como à não violência (ahimsa) contra as vacas e aos projetos de proteção a elas (Figura 1). A importância do panchagavya para melhorar a saúde do solo e a produtividade das plantações (CHANDRA et al., 2019; KUMAR et al., 2020) e para curar doenças e aumentar a imunidade de pessoas e animais (PARKAVI; GANESH; KOKILA, 2021) tem sido academicamente reconhecida. A proteção às vacas, embora alcunhada, por alguns autores defensores do bife, como um tabu associado ao casteísmo indiano (PARIKH; MILLER, 2019; SATHYAMALA, 2019), está fortemente alicerçada no BP. Apesar de interesses contraditórios, aliados ao consumo da carne bovina, desde um ponto de vista ecológico, é importante considerar que a demanda por proteína animal e a consequente aceitação de uma estrutura dietética carnívora é acompanhada por um impacto massivo da emissão de gases de efeito estufa no meio ambiente (ROTZ et al., 2019; GUO et al., 2022). Além do que, em um país como o Brasil, no qual a cadeia da carne bovina ocupa posição de destaque no contexto do agronegócio, os impactos ambientais da pecuária são óbvios, envolvendo: desmatamento, queima da vegetação, aumento de focos de calor e evolução de processos de erosão e compactação do solo (ABADIAS; FONSECA; BARBOS, 2020).

(...). Marvins Harris (1978) pergunta a si mesmo se haveria uma justificativa prática para as vacas sagradas da Índia. Então, conclui que “os camponeses indianos estão prontos a tolerar vacas que deem apenas 227 litros de leite por ano”, porque “o agricultor que possui uma vaca possui uma fábrica de produzir bois”. Dentre as razões práticas que encontra, ele considera que há escassez de animais de tração na Índia, apesar de que, no interior do país, as parelhas de boi são a base do transporte; e a eficiência da agricultura indiana seria supostamente assegurada pelo amor às vacas. Sabe-se que Marvin Harris é um dos autores da ecologia cultural que defende a razão prática de qualquer forma de tecnologia de manejo dos recursos naturais e de produção humana. Para ele, todas as categorias de comportamento do ser humano para com seu meio são desenvolvidas por terem alguma motivação prática. Porém, conforme muito bem defendido por Marshall Sahlins (2003, p. 212-213), “a produção visando o lucro é a produção de uma diferença simbolicamente significativa”. Ou seja, “a produção racional visando o lucro se move junto com a produção de símbolos”.

Acontece que razão prática e razão simbólica não são mutuamente excludentes e, por esse motivo, precisam ser consideradas em um uníssono, em se tratando de assuntos delicados como a Vaca Sagrada do Hinduísmo. No seu pensamento pragmático, Harris (1978, p. 22), ainda considera que, nas sociedades industrializadas e de alto teor energético, as substâncias químicas substituíram o esterco animal, como fertilizante agrícola; e os animais de tração foram substituídos por tratores. Ele afirma que “a maioria dos agricultores da Índia não pode participar desse complexo, não porque venerem suas vacas, mas simplesmente porque não têm condições para comprar tratores”. Além do que, o autor também menciona o volume anual de energia gerada pelo esterco, que além de fertilizante, é usado como combustível na cozinha, o que ele contrapõe com os modelos mais modernos de fogões dos EUA.

E, enfim, considera que tal “tabu” seja um produto da seleção natural, já que, mesmo que se sintam tentados a matar ou vender o gado, durante as secas e a fome, os agricultores indianos sabem que estarão impossibilitados de arar a terra quando as chuvas chegarem. Portanto, “o amor à vaca, com seus símbolos sagrados e doutrinas santas, protege o agricultor contra atitudes que são ‘racionais’ apenas a curto prazo” (HARRIS, 1978, p. 25). Esses “símbolos sagrados e doutrinas santas”, como ele preferiu mencionar não devem ser separados da utilidade prática da proteção às vacas, até porque desde um ângulo de visão planetário, o consumo de carne bovina pode se mostrar insustentável a longo prazo, a medida em que a população humana cresce. Além do que, a Vaca Sagrada está associada a ahimsa (não violência), o que não justifica que a tradição esteja sendo usada como motivação para os assassinatos de muçulmanos açougueiros, leiteiros e transportadores de bovinos, mencionados por Gabriel et al. (2021, p. 9), como “vítimas preferenciais do governo Modi”, que, a partir de uma estratégia ilegal, cerceia os direitos de minorias, que são garantidos por medidas legislativas.

Por outro lado, ao se considerar as razões práticas da Vaca Sagrada, no âmbito global, fica difícil aceitar argumentos defendidos por alguns autores, como Parikh e Miller (2019), os quais, usam de uma crítica à política do governo de direita de Narendra Modi, para propor que, o crescimento de uma intolerância nacionalista em torno do consumo de bovinos esteja causando perdas econômicas ao país indiano (PARIKH; MILLER, 2019). Na contramão a essas divergências políticas e culturais, em países como o Brasil, programas de proteção às vacas pontuais têm sido associados à proteção ambiental promovida pela sociedade civil organizada. É o caso do Projeto Santuário das Vacas, da comunidade Hare Krishna de Nova Gokula, Pindamonhangaba – SP (LOPES, 2020). Vê-se, portanto, não violência sendo empregada para justificar a violência no país indiano e, ao mesmo tempo, para preservar a harmonia da sociedade humana com outras espécies animais no país brasileiro (Figura 2).

Para ler o artigo na íntegra, veja o livro, clicando aqui.


Figura 2- A autora reciprocando afeto com um bezerro em abrigo de proteção às vacas, Vrindavana, UP

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