Pesquisar este blog

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Ecologia e Conservação de Porcos-do-Mato no Conhecimento Indígena


Figura 1 - Na trilha da TI Paquiçamba.


Os porcos do-mato do Brasil pertencem a duas espécies, a queixada (Tayassu pecari) e o cateto (Pecari tajacu). Eles são importantes frugívoros que dependem de áreas contínuas de florestas com diferentes tamanhos. Keuroghlian, Eaton e Longland (2004) mostram que T. pecari tem capacidade de sobreviver em fragmentos de floresta com até 2000 ha, enquanto a área usada por P. tajacu varia bastante em dimensão. Uma revisão breve da literatura antecedente, realizada por Peres (1996), mostra que os padrões de uso de territórios de forrageamento e de deslocamento pelas duas espécies são diferentes. O autor demonstra que queixadas (T. pecari) formam grupos maiores do que os catetos (P. tajacu), representando uma densidade mais elevada de biomassa da floresta. É por este motivo que eles necessitam de áreas mais extensas para se deslocarem, sendo bastante vulneráveis à fragmentação dos seus habitats naturais (Peres, 1996).

No entanto, na Amazônia, o estado de conservação da espécie é menos preocupante, pois neste bioma ela conta com “uma área de distribuição enorme, e as maiores chances de conservação de toda a sua distribuição (Keuroghlian et al., 2012, p. 85)”. Considerando-se que ambas as espécies dispersam sementes florestais, sua ausência no meio pode ser impactante para a dinâmica dos habitats. A caça sem bases sustentáveis é, portanto, uma ameaça não apenas à sobrevivência de ambas, mas ao seu meio como um todo. No entanto, os caçadores não têm demonstrado geralmente conhecimento dos efeitos da caça indiscriminada e/ou aplicação do mesmo conhecimento no que fazem. Mortandades de animais em grande escala têm sido causadas pela caça de dezenas de indivíduos de um mesmo bando de T. pecari quando avistado por caçadores (Peres, 1996). O uso de armas de fogo e a caça comercial realizada por indígenas da etnia Yine teve impacto nas populações de queixadas no Sudoeste da Amazônia Peruana (Solorio, 2010).

(...). Por outro lado, Ramírez e Balladares (2010) fazem uma aproximação entre a socialização do conhecimento tradicional e de hábitos de povos indígenas da Amazônia Boliviana. Com relação aos porcos-do-mato, eles citam que: (a) os Mosetén sabem que se quiserem caçar catetos (T. pecari), quando o capim-limão amadurece, devem se dirigir a colinas íngremes com formas afiadas e, quando uma espécie de palmeira (a chima) amadurece, devem ir a áreas arbustivas, de pousio e planícies; e (b) os Tsimane sabem que, quando a palmeira majo amadurece, eles podem caçar catetos, além de outras espécies da fauna. Estas concepções do grupo são transferidas para as crianças, como indicadores naturais “que revelam quando elas devem ou não realizar certas atividades em diferentes áreas do seu território (Ramírez; Balladares, 2010, p. 141)”. Além do que, quando têm entre um ano e meio e seis anos de idade, elas aprendem os nomes dos animais e a preparar os indivíduos caçados; e começam a aprender em casa quais são as técnicas de caça na floresta. De forma semelhante, a transmissão oral de práticas de uso da fauna na medicina popular indígena entre gerações é mencionada por Santos (2017) no sertão árido do Nordeste brasileiro.

Em geral, o principal ambiente de aprendizagem das crianças é a casa onde vivem com seus pais e as adjacências às mesmas. Os pais, irmãos mais velhos e outros parentes são os responsáveis pela transferência do conhecimento por tradição oral. Outra situação que envolve a aprendizagem de crianças indígenas é descrita por Remorini (2015). Este estudo revela percepções obtidas em torno de um grupo não amazônico - os Mbya-Guarani da Argentina. A autora percebeu que as crianças do grupo desenvolvem habilidades associadas à vida na floresta por observação, em uma perspectiva ecológica que reconhece as relações do ser humano com as outras espécies. Para tanto, elas participam da vida em comunidade e colaboram em atividades diárias em grupos multietários e que contam com membros mais experientes. A compreensão deste tipo de processo de aprendizagem ecológica pode apoiar a definição de estratégias conservacionistas, evitando divergências interpretativas na gestão da fauna silvestre comentadas por Almeida e Santos (2017).

Sendo, portanto, necessários aprofundamentos em torno da aprendizagem das crianças Amazônicas. Elas foram estudadas na Bolívia por Ramírez e Balladares (2010), onde é provável que também adquiram conhecimento da maneira descrita por Remorini (2015), porém em faixas etárias diferentes das que foram amostradas por eles (um a seis anos de idade). Ademais, elas com certeza aprendem adicionalmente com suas cosmologias. Adiseshan (2010) sugere que alguns povos Indígenas podem ser partes fundamentais dos ecossistemas florestais, realizando manejo participativo dos recursos. Ela descreve que os Ese eja cultivam campos de bambu, os quais são queimados para, quando os brotos renascerem das queimas, as queixadas (T. pecari) sejam atraídas por eles. Estes animais são usados como caça, mas também contêm um significado religioso para os indígenas da etnia. Os Ese eja acreditam que as queixadas podem ter conexões com seus mortos e se comunicam com seus xamãs - explica Adiseshan (2010).

Na cultura material Kaingang, o porco-do-mato também tem grande importância etnoecológica. Freitas (2014, p. 74) analisa informações que obteve de um xamã da etnia. Ele descreve que “os porcos-do-mato se organizam em uma sociedade que em muito se assemelha à dos Kaingangs: eles possuem caciques, guerreiros e xamãs”. Segundo a descrição de tal construção simbólica, existe uma luta entre o xamã indígena e o xamã dos porcos-do-mato. Ambos usam remédios do mato e interagem em sonhos. O último informa o primeiro sobre os locais onde os porcos “pretendem beber água, quais os pés de frutas que planejam comer e, assim, os caçadores obtêm boa caçada (Freitas, 2014, p. 75)”. Cabe aos caçadores abaterem o cacique dos porcos-do-mato, o qual é descrito como um animal diferente dos outros, com presas grandes, mais escuro e com cheiro mais forte. A caçada é coletiva e feita através de um cerco da vara de porcos. Quando há filhotes, alguns podem ser levados para as aldeias, sendo criados como filhos das mães índias, que inclusive os amamentam, junto com as crianças.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.



Figura 2 - Pegada de cateto (Pecari tajacu) na trilha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

POSTAGEM EM DESTAQUE

Ecofilosofia, Ecologia Profunda e Vedanta – aplicações psico-socioambientais de diálogos interculturais Brasil-Índia

Figura 1 - Rota de peregrinação em Govardhana, Índia. Divulgo aqui um projeto de extensão da UFPA, que parte do pressuposto que a  sociedade...